Um europeu descarta até 11 quilos de roupa por ano. Em todo o mundo, “um camião de roupa por segundo, acaba em aterros sanitários”. É a lei implacável das roupas não vendidas. Para alguns governos, a escolha certa é proibir o seu descarte. Ao analisarmos a abrangência geográfica desta proibição, procuramos perceber se a sua imposição está correta.
Será que proibir a destruição de roupa não vendida é realmente a escolha certa? Segundo as estatísticas da UE, um europeu médio descarta até 11 quilos de roupa por ano. A nível mundial, Frans Timmermans (Vice-Presidente Executivo do Pacto Ecológico Europeu) sublinha que “um camião de roupa por segundo acaba em incineradores ou aterros sanitários”. É evidente que há uma sobreprodução e, para a limitar, os governos estão a pensar começar pelo fim: evitar a destruição de roupa não vendida.
A França saiu na frente com a lei AGEC (Loi Anti-Gaspillage pour une Économie Circulaire), que estipulava que, a partir de 1 de janeiro de 2022, os fabricantes (incluindo os de moda) já não se poderiam desfazer de mercadorias não vendidas. Paris foi o primeiro governo do mundo a tomar tal medida. A Itália, que partilha a produção de moda de luxo com a França, deu um passo em frente. Adolfo Urso, Ministro da Empresa e do Made in Italy, promete que o eixo Roma-Paris terá influência em Bruxelas, “sobretudo no que diz respeito às obrigações de proibição da destruição de mercadorias não vendidas”.
Muitos outros países estão a abordar a questão. Em Espanha, uma lei que regula a eliminação de resíduos foi aprovada em abril de 2022. Na Alemanha, uma lei sobre a economia circular introduziu mais medidas de prevenção de resíduos. O governo escocês planeia um projeto de lei sobre a economia circular. Nos Países Baixos, existe a ambição de desenvolver uma economia circular até 2050: um primeiro passo é reduzir a utilização de matérias-primas primárias (minerais, fósseis e metais) em 50% até 2030. A proibição da destruição de mercadorias não vendidas é também um dos objetivos.
A UE não ficou de braços cruzados. A 30 de março de 2022, publicou uma proposta de regulamento intitulada “ESPR – Ecodesign para Produtos Sustentáveis”, que proíbe a destruição de mercadorias não vendidas com o objetivo de melhorar, entre outras coisas, a circularidade dos produtos. A data prevista para a adoção de normas específicas para o setor têxtil da moda era 2025. Apesar dos crescentes movimentos de combate ao desperdício nos Estados Unidos, continua a ser legal destruir os produtos excedentes. Dos outros continentes, porém, não há novidades.
Mas será que proibir a destruição de produtos não vendidos é a escolha certa? O instituto alemão de estratégias ambientais, Ökopol (membro do BSE – Gabinete Europeu do Ambiente), não está convencido. Afirma que a destruição ou a eliminação deliberada de mercadorias devolvidas ou não vendidas contradiz seriamente dois dos objectivos cruciais do Pacto Ecológico Europeu e do Plano de Acção para a Economia Circular da União Europeia. Primeiro: a promoção de uma economia circular eficiente em termos de recursos. Segundo: a redução da geração de resíduos. Além disso, muitos temem que as proibições de aterros sanitários, se não forem acompanhadas de soluções abrangentes para a gestão de resíduos por parte das empresas, acabem por resultar na eliminação destes artigos noutros locais.
No New York Times, Genevieve LeBaron, especialista em trabalho internacional da Universidade Simon Fraser, no Canadá, observa que, com uma considerável resistência de muitas empresas, uma recessão global iminente e um cenário geopolítico instável, pôr isto em prática, estaria longe de ser simples. Já na WWD, Philippe Schiesser, fundador da consultora de ecodesign Ecoeff Lab, alarga os horizontes: “Temos de olhar para além do contexto francês ou europeu. Não faz sentido criar um sistema para um único território porque, para o bem e para o mal, a indústria da moda é global”.
Tradução livre de LINEAPELLE
11 de abril de 2026
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