As Nações Unidas identificaram a conservação das florestas como uma componente importante da luta pela redução das emissões de carbono. Contrariamente às perceções de muitos, os criadores de gado estão convencidos de que também podem contribuir. E têm os números para provar.
No final de outubro, a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou o seu Relatório de 2024 sobre o Défice de Emissões, afirmando que tinha chegado a “hora do aperto climático”.
A ONU publica este relatório anualmente desde 2016. O seu objetivo é analisar a diferença entre o rumo que as emissões globais estão a tomar e o lugar onde deveriam estar, se a humanidade quiser limitar o aquecimento gloval em conformidade com o Acordo de Paris. O acordo, também de 20216, obriga os seus 195 signatários a trabalhar para manter o aumento da temperatura da superfície global “ bem abaixo” dos 2ºC, em comparação com os níveis pré-industriais. Os signatários concordaram igualmente em prosseguir o objetivo de manter o aquecimento global a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.
Quando o relatório de 2024 apareceu, demonstrou que se verificou um novo recorde de emissões globais de gases com efeito de estufa, em 2023, com um total de 57,1 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e). A reação do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, foi dizer: ≪Estamos a balançar na corda bamba planetária. Ou os líderes colmatam o fosso das emissões ou mergulhamos de cabeça no desastre climático, com os mais pobres e vulneráveis a sofrerem mais≫. Os governos têm de mostrar urgentemente ≪um aumento da ambição≫ para conseguirem reduções de emissões suficientemente substanciais para que os objetivos de Paris voltem a ser cumpridos.
Para que 1,5ºC ou “bem abaixo de 2ºC” se tornem novamente alcançáveis, as Nações Unidas afirmam que as nações, coletivamente, devem comprometer-se a reduzir as emissões anuais de gases com efeito de estufa em 42% até 2030 e em 57% até 2035. Sem estas “reduções drásticas”, alerta o relatório, o mundo poderá enfrentar um aumento de temperatura ≪inevitável e catastrófico≫ de 3,1ºC até ao final deste século.
Fontes de esperança
Apesar do tom da sua mensagem principal, a ONU afirmou, na apresentação destes números, que ainda há esperança. O aumento da utilização de energia solar fotovoltaica e eólica poderia contribuir com 27% da redução necessária para 2030 e 38% da redução necessária até 2035. A conservação das florestas poderia proporcionar mais 20% das reduções necessárias em ambos os anos. Outras estratégias eficazes sugeridas pela ONU incluem o aumento da eficiência energética, a eletrificação de “vários sectores” e a transição dos combustíveis fósseis para os edifícios, os transportes e a indústria. No entanto, para que tudo isto se concretize, será necessária uma cooperação internacional sem precedentes”.
As medidas sugeridas centram-se na energia porque, de acordo com os números da ONU, a energia contribuiu com 68,7% das emissões totais em 2023, os resíduos com 4% e os processos industriais com pouco mais de 9%. O uso do solo, a alteração do uso do solo e a silvicultura têm uma quota de 7%. A ONU atribui os restantes 11% das emissões à agricultura, com a quota-parte da pecuária a situar-se nos 6% do total.
Parte da solução
É evidente que a ONU, de acordo com o que foi dito, acredita que a gestão das florestas pode tornar-se parte da solução. E se a criação de gado puder fazer o mesmo? São comuns as mensagens incansáveis que empurram as pessoas a reduzir ou a rejeitar o consumo de proteínas animais como forma de combater as alterações climáticas. Não fazem parte do Relatório 2024 sobre o Défice de Emissões, mas tornam-se comuns na cobertura desta questão pelos principais meios de comunicação social e são uma parte importante do conteúdo dos comunicados de imprensa e relatórios de grupos de campanha. Poucas semanas antes da publicação do novo relatório da ONU, a Greenpeace Nordics publicou a sua própria atualização de 82 páginas sobre as alterações climáticas, com o subtítulo “Pulling the climate emergency brake on big meat and dairy” (“Puxar o travão de emergência climática à carne e aos lacticínios”). Nos dias que se seguiram, a organização celebrou o facto de a publicação do documento ter levado ≪ativistas de muitos países a visitarem alguns dos maiores gigantes mundiais da carne e dos lacticínios≫.
O Professor John Gilliland não se inclui entre os “ gigantes da carne”, mas é um criador de gado. A sua família gere o Brook Hall Estate em County Derry, na Irlanda, desde 1856. É mesmo do Soil Mission Board da União Europeia, conselheiro especial do Agriculture Holticulture Development Board do Reino Unido e professor honorário de prática agrícola e sustentabilidade na Queen’s University, Belfast. Mas a manada da sua quinta é pequena, composta por 20 novilhos. No entanto, também ele tem sido alvo de perguntas sobre esta parte do seu trabalho por parte do público. Em eventos “open farm”, diz que ≪jovens impressionáveis≫ têm sido francos nas críticas que lhe fazem por fazer parte da indústria pecuária.
A sua resposta é reconhecer a sua paixão pela sustentabilidade, mas depois coloca-lhes uma questão. Explica: ≪Pergunto-lhes a quantidade de carbono que têm responsabilidade de gerir todos os anos. Eles admitem que não fazem ideia. Agradeço-lhes a honestidade, mas depois digo-lhes que devem conhecer os seus números. Eu conheço os meus números. Na minha exploração agrícola, sou responsável pela gestão de 24405 toneladas de carbono todos os anos, e isto antes de produzir um grama de comida para eles comerem. E, por isso, peço-lhes que me tratem com algum respeito porque precisam tanto de mim como eu preciso deles. Isso desarma a agressividade e a paixão, e então podemos ter uma boa conversa≫.
O que dizem os números
O seu objetivo é levar a conversa para a contribuição positiva que os agricultores podem dar a luta contra as alterações climáticas. John Gilliland acredita que se a conservação das florestas pode ser uma força positiva na redução das emissões, as explorações pecuárias também o podem ser. Com base nos seus números, acredita que Brook Hall Estate já está a ter um impacto positivo, pois os números dizem-lhe que a quinta não só atingiu o valor líquido zero, como foi além desse valor. A quinta calculou os seus números utilizando o Agrecalc, um calculador de eficiência dos recursos agrícolas e de emissões de gases com efeito estufa desenvolvido na Escócia, em conjunto com estudantes de doutoramento dos Países Baixos e da Irlanda. Calculou as suas emissões de gases com efeito de estufa e calculou a quantidade de carbono no solo da exploração e nas suas árvores e arbustos para poder estimar a retenção de carbono. O Professor Gilliland obteve assim um valor para a posição líquida de carbono da exploração agrícola. As emissões brutas são de 151 toneladas de CO2e por ano. A retenção bruta é de 156 toneladas de CO2e por ano. As emissões líquidas de Brook Hall Estate são, portanto, menos 4 toneladas de CO2e por anos. As ferramentas que a quinta utilizou incluem a tecnologia LiDAR (light detenction and ranging) aerotransportada para determinar a altura das árvores no local e a tecnologia de amostragem do solo para medir o teor de carbono a profundidades até um metro abaixo do solo e para registar as alterações nos níveis de carbono.
Super solo
A determinação da altura das árvores e da área de copa que cobrem permite, através de software, calcular a quantidade de carbono que as árvores contêm. A análise do solo na quinta de Professor Gilliland permitiu-lhe determinar qual o tipo de utilização do solo que proporciona maior retenção de carbono. Convertido em CO2e, o solo da quinta captura um pouco menos de 20.000 toneladas. Considera interessante o facto de, apesar de ter um grande número de árvores, incluindo salgueiros de curta rotação como cultura de energia renovável e carvalhos com 250 anos de idade, 80% do carbono capturado pela quinta estar no solo. Para ele, este cálculo pode ser uma surpresa para alguns dos grupos que apelam aos agricultores para que se livrem do gado e plantem mais árvores. As fezes do gado desempenham um papel extremamente importante na saúde do solo. Ele tem números que o comprovam. O seu uso da terra é diversificado, mas agora sabe que as áreas onde o seu gado pasta são as que têm, de longe, a melhor concentração de minhocas e de biomassa de bactérias e fungos no solo.
O Comissário encoraja todos os criadores de gado a calcularem os seus próprios números, se puderem, reconhecendo que será muito mais difícil para alguns do que para outros. Apela à ajuda dos reguladores e dos governos para que reconheçam e registem os contributos positivos que os agricultores de menor escala estão a dar para os esforços mais amplos de combate às emissões. Estes poderiam ser alargados a empresas agrícolas de maior dimensão, mas questiona se os sistemas de emissões de âmbito três ou os inventários governamentais de emissões de gases com efeito de estufa são ≪suficientemente inteligentes≫ para detetar as mudanças que os agricultores como ele já estão a realizar.
Saúde desde a raíz
Há situações em que os agricultores podem ajudar a acelerar a transição para a neutralidade, mantendo a viabilidade das suas atividades. Mas há também cenários de ganhos e perdas e o Comissário salienta que os agricultores não podem atingir o objetivo de zero emissões sem ajuda para garantir que os ganhos se concretizem. Estes incluem a melhoria da utilização da genética na gestão dos efetivos, a redução da idade de abate e a melhoria do pH do solo. As alternativas com ganhos e perdas incluem, na opinião do professor, a opção muito elogiada dos aditivos alimentares como forma de reduzir o metano dos efetivos bovinos. ≪É suposto ser uma grande bala de prata≫, diz. ≪Toda a gente me diz isso. Mas quem é que vai pagar? Há um segundo grande impulso na Europa para os fertilizantes azotados verdes. São coisas que poderíamos fazer, mas que, de momento, significariam perder dinheiro. É por isso que os agricultores não têm pressa em fazê-lo≫. Tudo isto, claro, tem a ver com ajudar os agricultores a encontrar formas viáveis de continuar a produzir alimentos, ao mesmo tempo que atingem e ultrapassam o valor zero. As estatísticas do solo do Professor Gilliland mostram como o gado é importante neste contexto. Ele diz acreditar na saúde a partir da base e que um solo saudável contribui para sociedades saudáveis. Tornar as explorações pecuárias mais eficientes e mais sustentáveis pode ajudar a alimentar as pessoas e a tornar o Acordo de Paris mais exequível.
Fonte: Leatherbiz.com
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